Segunda-feira, 22 Outubro 2018
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Coluna: Política à Flor da Pele

 

danielebarreto

Dilma vilã, demais políticos anistiados

Domingo passado  foi um dia histórico no país. Milhares de cidadãos, guiados pelo desejo de mudança, tomaram as ruas de capitais e cidades do interior de vários estados, bradando pelo fim da corrupção e pela saída da presidente Dilma do poder.

Na sexta-feira, o PT tinha conseguido levar para as ruas uma quantidade muito menor de pessoas, mobilizando a CUT, o movimento sem terra, a união dos estudantes e outros grupos sindicais ligados ao partido ou ao governo.

A primeira questão que precisamos atentar é a simbologia dos movimentos. Enquanto a manifestação petista inundou ruas com o vermelho, que vem sendo rejeitado pelas pessoas, a manifestação de domingo valorizou nossas cores e bandeiras, buscando mostrar que existe um país acima de interesses partidários.

Nós já tínhamos visto manifestações dessa dimensão em 2013, quando muita gente ocupou as ruas do Brasil exigindo o fim da corrupção. Mas existem algumas diferenças entre os protestos de 2013 e os que ocorram domingo. Em 2013, o clamor popular era dirigido a todo e qualquer político. As pessoas foram às ruas reclamar por um país mais limpo, atacando siglas partidárias diversas e impedindo a participação de políticos nos atos de cidadania. Alguns deputados e senadores que tentaram capitalizar para si as manifestações foram fortemente criticados por pessoas que lutavam pelo fim da corrupção e pela moralização da política, independentemente de legenda.

Mas agora o discurso do povo mudou!

As manifestações de domingo se seguiram após uma eleição disputada, na qual Dilma ganhou com uma frente muito pequena de aproximadamente 3 milhões de votos. E em um momento político de desgaste da Presidente com o Congresso. Esses fatores fizeram com que eleitores de Aécio conseguissem se mobilizar mais facilmente (porque ainda se encontram no clima da campanha política recente) e contagiassem alguns eleitores de Dilma insatisfeitos com as recentes medidas econômicas. Assim, não foi difícil conseguir aliar a imagem da presidente à “personificação” da corrupção e mazelas do país.

Essa é a principal característica que diferenciou 2013 de 2015: dessa vez, as pessoas escolheram seus vilões: Dilma e o PT. No domingo, o povo esqueceu dos milhares de bandidos que destroem prefeituras, câmaras de vereadores, secretarias municipais e estaduais em todo o país… e focaram numa personagem: a presidente.

Se por um lado a manifestação de domingo tem o mérito de mostrar o engajamento popular, tem o gravíssimo demérito de dar um salvo conduto a milhares de políticos pelo país, que se sentem agora muito confortáveis bradar contra a corrupção (sem que isso se coadune com suas ações e trajetórias políticas).

Sem cartazes com outros nomes de políticos e aceitando creditar todas as mazelas do país na conta do PT, o povo terminou anistiando Renan, Collor, Eduardo Cunha e mais uns 400 corruptos que se encontram no Congresso. Como a Câmara dos Deputados e o Senado não foram alvo das manifestações, opositores oportunistas ganharam espaço e expandiram suas possibilidades de pressionar Dilma e chantagear para obter mais cargos e conseguir a votação de matérias do seu interesse. E o povo vai ser a moeda de troca.

Daniele Barreto é advogada, colunista e escreve no blog www.danielebarreto.com.br

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